Fez quarta-feira duas semanas que desapareceste.
Sabes que nunca vou ser capaz de te perdoar. Gostava de saber que estás bem e que seguiste com a tua vida, mas não te posso perdoar. Já só sou um vazio. Trato das coisas e falo com as pessoas sobre ti, mas estou desprovida de emoção há mais dias que sou capaz de contar. E provavelmente vou ficar assim mais tempo. E é essa espera que me corrói por dentro. Tive de vagar a tua casa. Tirar tudo o que é teu de lá, porque a D. Isabel quis alugar a casa. Pediu-me desculpa, mas tinha de seguir com a vida dela. Claro que sim. Todos temos, não é? Mas mesmo assim guardei a maior parte das coisas. Roupas. Fotografias. Alguns livros. Coisas que, no caso de voltares, servirão para continuares a tua vida aqui ou noutro lado qualquer. A Sandra nunca mais ligou. Tem a vida dela e não tem tempo, mas de vez em quando lembra-se de alguma coisa e vem perguntar-me "já viste isto?" "já perguntaste aquilo?". E às vezes coisas tão óbvias, que até penso ser uma palermice ainda não ter pensado nisso. Como a tia. perguntar pela Matilde. Mas custa-me perguntar por ti a certas pessoas, porque depois é mais uma a preocupar-se e a passar os dias a ligar-me, ao fim da tarde, porque é quando as pessoas têm tempo de pensar em algo mais do que elas próprias. Mas eu dou por mim a pensar em ti mais do que frequentemente. Já pensava, sei que não acreditas, mas é verdade. Muitas vezes porque passava por mãe e filha na rua e tinha pena de já não sermos assim e porque não tentávamos ser assim. Encontrei um número de telefone por aí, liguei, era a Tina! Há tanto tempo não ouvi a Tina. Ficou ralada na altura, mas não voltou a ligar. A Engª Madalena também não. E da GNR também nada. Tou à espera de te ver, na televisão, numa reportagem, numa notícia, a passar de carro na rua. Agora todos os carros vermelhos são o teu, sabias? Encontrei uma carta tua num caderno que tinhas lá para tua casa, dizia que passado algum tempo só serias mais uma mulher... Não podias estar mais errada. Mas tenho-me lembrado de algumas histórias tuas, há coisas que se repetem e felizmente tenho sabido lidar com elas porque tu me contaste como se passaram contigo.